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A Comunicação é Parte da Natureza Humana

Uma Reflexão Filosofica a Respeito do Direito a se Comunicar

Dr. Michael Traber

O discurso sobre os Direitos à Comunicação parece alcançar um novo momento. Uma razão para isso pode ser que muitos povos, ao iniciar de um novo milênio, experimentam um senso de fragilidade a respeito do mundo ao seu redor. Sentem-se submetidos à guerra, à violência e à degradação ambiental. Sentem-se manipulados na maneira como são levados a votar e a comprar coisas, e inseguros em seus julgamentos morais. Duvidam se ainda podem estar seguros sobre o mundo que desejam viver e deixar para suas crianças. Eles querem se expressar sobre essas angústias, mas não conseguem se fazer ouvidos.

Nessa situação, o discurso sobre os Direitos à Comunicação – pública e privada, individual e social – necessita prosseguir com um alto grau de clareza, concentrando-se em estabelecer o caráter essencial da comunicação como algo próprio da natureza humana.

Sim, as estruturas legais para os Direitos à Comunicação e a implementação desses Direitos são importantes. Também são importantes as tecnologias, que tanto podem ser usadas contra ou a favor da liberdade e da democracia, assim como é preciso dar espaço às manifestações culturais multifacetadas, em uma arena cada vez mais globalizada pela mídia de massa. Por tocar assim tantas e vitais facetas da vida humana, a necessidade de encontrar uma compreensão compartilhada e comum para o discurso é crucial. Esse é o objetivo principal deste texto.

O ponto inicial é definir o que significa ser humano. Embora nós possamos, primeiramente, nos concebermos como pessoas individuais, nossa personalidade – o que somos realmente – depende dos outros. Nós somos, ao mesmo tempo, seres individuais e sociais. Nós prosseguimos então para refletir sobre a natureza humana como estar-com-os-outros, condicionada e orientada em direção aos outros. O dom humano único da linguagem, como nosso habitat social e cultural, assim como fonte da individualidade e sociabilidade, demonstra isso. Comunicação é, conseqüentemente, uma característica humana essencial e uma necessidade social fundamental. Seu núcleo central é a noção filosófica da intersubjetividade, que implica uma comunicação na liberdade, na igualdade e na solidariedade. Nossas reflexões finais são a respeito da comunicação como o elemento vital da sociedade.

ESTAR-COM-OS-OUTROS

Intersubjetividade

Uma das perguntas filosóficas, que tem ocupado pensadores por séculos, é aquela da autenticidade humana. Quais são as características essenciais do ser humano? O que nos distingue de outros mamíferos? O que é autenticamente humano? A vida humana se distingue de qualquer outra por ser essencialmente orientada para os outros. Nós parecemos ser condicionados a viver em um mundo de ‘NÓS’, antes do ‘EU’ e ‘ELES’. LONERGAN (1972:57) descreve isso como se segue:

“Assim como alguém levanta espontaneamente o braço para golpear a cabeça de alguém, pode espontaneamente estender o braço para alcançar e salvar alguém da queda. Percepção, sentimento e o movimento corporal são envolvidos, mas a ajuda dada a outra pessoa não é deliberada, mas espontânea. Alguém só se dá conta disso não antes mas durante o fato. É como se ‘NÓS’ assumíssemos ser membros uns dos outros antes de nossas distinções nos afastarem uns dos outros.”

Freqüentemente indicou-se que os seres humanos são os únicos mamíferos que são completamente dependentes de outros seres humanos, primeiramente de suas mães, quando são recém-nascidos. A sobrevivência dos bebês depende dos outros, e não apenas por algumas semanas, mas por vários anos. Poucos se deram conta então que a primeira manifestação de intersubjetividade pode ser um sorriso de nenê.

Nós não aprendemos a sorrir como aprendemos a andar, falar, nadar ou patinar. Geralmente nós não pensamos antes de sorrir e só então o fazemos. Nós simplesmente sorrimos. Outra vez, nós não aprendemos o sentido de sorrir como aprendemos o sentido das palavras. O sentido do sorriso é uma descoberta que fazemos em nós mesmos, e esse sentido não parece variar de cultura a cultura, como o sentido dos gestos. Há algo inerente ao sorriso (LONERGAN, 1972:60).

O sorriso expressa o que uma mãe ou um pai significa para um bebê. E durante toda a nossa vida um sorriso indica o que uma pessoa significa para a outra. Seu sentido é intersubjetivo. Sinaliza espontaneamente a ‘presença do outro’. É uma forma primordial da transcendência pessoal.

Os seres humanos tornam-se autênticos na transcendência pessoal. Este é o núcleo essencial de um ‘ser social’. A solidão absoluta é um abismo inumano. E a ‘ausência intencional do outro’ é, nas palavras de J.P. Sartre, ‘o inferno’. Por outro lado, a forma mais elevada da transcendência pessoal é a própria entrega ao outro, implícita no amor, que é o ‘imperativo primordial do que significa ser humano’ (LONERGAN, 1985:134). Assim, ao transcender para além de si mesmo alguém se torna alguém.

Linguagem como transcendência pessoal

Platão definiu o ser humano como ‘o animal que fala’ (zoon logon echon). Há um pequeno ponto de divergência entre Platão e seu aluno Aristóteles, para quem o ser humano é ‘o animal que pensa’. O discurso e a razão se condicionam mutuamente e são dependentes um do outro. Exceto que, psicologicamente e nos estágios do desenvolvimento humano, a linguagem vem antes.

Os seres humanos falam. Nós falamos quando estamos acordados e quando sonhamos. Nós falamos sempre, mesmo quando não expressamos uma única palavra audível, mas simplesmente escutamos ou lemos, e mesmo quando não estamos escutando ou falando, mas realizando algum trabalho ou descansando. Nós estamos continuamente falando, de um jeito ou de outro. Nós falamos porque isso é natural para nós. Não é algo que necessita de algum tipo de habilidade especial. Os seres humanos são conhecidos por ter a linguagem em sua natureza. Isso significa que os seres humanos, de forma distinta às plantas e os animais, são seres vivos com a capacidade do discurso. Esta indicação não significa somente que, junto com outras faculdades, os seres humanos possuem também a faculdade do discurso. Significa dizer que somente o discurso permite ao ser humano viver aquilo que ele é enquanto ser humano. Por falar aquilo que o ser humano é – humano (Heidegger, 1971:189).

A filosofia da linguagem é naturalmente muito anterior aos escritos de Heidegger, que chamou a linguagem ‘o lar do ser’. Contudo, a linguagem como base para a antropologia filosófica pode ser uma das principais discussões filosóficas do século XX. O trabalho seminal de Charles Morris (Foundation of a Theory of Signs, 1938) foi um dos primeiros frutos da semiótica moderna. Morris (1975:235) afirmou mais tarde:

“Tudo que é caracteristicamente humano depende da linguagem. O ser humano é, em primeira instância, o animal falante. O discurso representa o mais essencial – mas não o único – papel no desenvolvimento e na preservação da identidade humana e de suas aberrações, assim como faz no desenvolvimento e na manutenção da sociedade e de suas aberrações.”

Na filosofia atual da linguagem, a razão e a linguagem são co-originais. Uma não pode se desenvolver sem a outra. “A razão avança somente por meio do estabelecimento de expressões comunicáveis, e a linguagem é a única e concreta manifestação da razão” (PASQUALI, 1997:43). No ato comunicativo, “a linguagem transforma-se na base, forma e substância da intersubjetividade” (op.cit.). VACLAV (1990:44) sumariza o significado da linguagem como segue:

"As palavras podem ser reconhecidas como a fonte primeira de nosso ser, a substância primordial da forma de vida cósmica que nós chamamos pessoas. O espírito, a alma humana, nossa identidade, nossa habilidade de generalizar e pensar em conceitos, para perceber o mundo como mundo (não apenas como localidade), e, finalmente, nossa capacidade de saber que morreremos e viveremos apesar desse conhecimento: certamente tudo isso é mediado ou criado pelas palavras.”

A própria natureza humana forneceu a evidência tangível para esta visão sobre a linguagem. Susanne K. Langer (1974) discutiu detalhadamente o fenômeno das ‘crianças selvagens’ ou ‘meninos-lobo’, e as experiências com os chimpanzés com respeito à aprendizagem de língua. Alguns casos de ‘meninos-lobo’ – crianças que cresceram sem companhia humana – têm sido estudados. Os mais bem documentados são os casos de Peter, que foi encontrado nos campos perto de Hannover, Alemanha, em 1723; Victor, que foi capturado em Aveyron, sul da França, com aproximadamente 12 anos de idade, em 1799; e duas meninas mais jovens ainda, Amala e Kamala, que passaram a ser acompanhadas por seres humanos perto de Midnapur, Índia, em 1920. Nenhumas destas crianças podia falar em qualquer linguagem, apesar de imitarem muito bem o som dos animais entre os quais tinham vivido. Amala e Kamala nunca conseguiram conversar entre si, e após seis anos convivendo com outros seres humanos, Kamala, (que sobreviveu à sua irmã) tinha aprendido aproximadamente quarenta palavras, chegando a expressar algumas sentenças com três vocábulos, mas só quando era solicitada para assim agir. Aparentemente, as crianças pequenas têm um período melhor para aprender a linguagem, o que não permite esse desenvolvimento em momento mais tarde na vida (veja LANGER, 1974:122). Quanto à questão das linguagens animais, LANGER (1964:33) chegou à seguinte conclusão:

“A linguagem animal não é uma linguagem, e o que é mais importante, ela nunca conduz à linguagem. Os cães que vivem com homens aprendem a compreender muitos sinais verbais, mas somente como sinais, com relação a suas próprias ações. Macacos que vivem nos povoados humanos e parecem se comunicar razoavelmente bem, nunca conversam. Mas um bebê que domina somente meia dúzia de palavras começa a conversar: ‘mamãe foi’, ‘papai vem?’, ‘papai vem’. Pergunta e resposta, afirmação e negação, denotação e descrição – esses são os usos básicos da língua. O abismo entre a capacidade animal e humana de se comunicar é... a lógica linear da linguagem.”

Então, a linguagem é a condição comum da espécie humana. Nós vivemos no lar da linguagem. Até o presente momento não foi encontrada nenhuma pessoa ou grupo tribal que não tenha desenvolvido algum sistema de linguagem, mesmo que com profundas diferenças entre eles. Mas a articulação audível dos sons, para formar palavras e sentenças, é somente um tipo de linguagem humana, embora a mais potente. Os outros são chamados de linguagem corporal, sendo que empregam principalmente o toque, os gestos e símbolos visuais como sinais. Conseqüentemente, o estar-com-os-outros, enquanto seres humanos, requer uma linguagem para dar forma, manter e expressar a relação com os outros, assim como a linguagem nos permite ‘nomear’ objetos do mundo ao nosso redor.

Em suma, a essência do ser humano como ser social é constituída e aperfeiçoada pela linguagem. Estar-com-os-outros-no-mundo, ou ser intersubjetivo, só é possível e realizável na transcendência pessoal da comunicação. Quando nós somos privados dessa integridade não podemos viver vidas dignas da natureza humana. Sendo assim, a linguagem é a construção simbólica humana que permite construir e manter os relacionamentos.

Comunicação na liberdade, na igualdade e na solidariedade

É razoavelmente fácil demonstrar (como já vimos) que a linguagem é parte do ser humano. A linguagem em ação, que é comunicação, é uma necessidade humana individual –tão básica quanto os alimentos, roupas e abrigo. Necessidades básicas são aquelas que são essenciais para nossa existência e sobrevivência. São as reais condições fundamentais da vida humana. Por causa disso, as necessidades humanas básicas transformam-se em direitos humanos fundamentais. Apesar dessa lógica ser usualmente reconhecida no que diz respeito às necessidades humanas físicas – comida, bebida, abrigo, roupa, talvez na ordem de importância listada –, as necessidades não-materiais do ser humano, como a linguagem e a comunicação, são mais controversas. A maioria das pessoas parece sobreviver ao confinamento solitário, à exclusão e à excomunhão, em parte porque controlam de algum modo uma comunicação interpessoal intencional, mantendo ou renegociando um sentido de ser, mesmo durante o período em que são silenciadas. Ser silenciado nunca é completamente bem-sucedido, porque ninguém pode nos privar de nossa natureza relacional.

A experiência de ser silenciado, entretanto, revela uma outra dimensão existencial do ser humano, a saber, a necessidade de liberdade. Qual a vantagem de viver na casa da linguagem se não pudermos conversar nela livremente? Linguagem e liberdade estão imbricadas uma na outra. O dom da linguagem é, ao mesmo tempo, o dom da liberdade. Privação da liberdade torna a comunicação genuína impossível e o primeiro sinal de repressão nos grupos e nas sociedades é a supressão da liberdade do discurso. Isto pode ser muito sutil. A intimidação ou a inculcação do medo e a exposição ao ridículo podem suprimir a liberdade, para ajudar a construir ou manter as estruturas autoritárias que permitem nenhuma ou quase nenhuma dissensão. Liberdade significa ser parte de – e ser apto a participar – de uma vida em comum. “O princípio da liberdade de expressão é algo que não admite exceção, e é aplicável a pessoas em todo o mundo pela virtude de sua dignidade humana” (Relatório MacBride, 1980:18).

A liberdade humana é axiológica. Não necessita nenhuma prova. É parte da experiência da vida e somente pode ser objeto de reflexão. A reflexão revela que a liberdade é uma parte integral da natureza humana e, assim, uma condição prévia dos seres humanos para atuarem como seres morais. A liberdade torna possível toda a ação especificamente humana, inclusive a comunicação... A racionalidade para a liberdade é se tornar mais verdadeiramente humana e humanitária. A liberdade é parte tanto de ser humano quanto de se tornar humanitário. Somente no encontro livre com os outros a liberdade genuína pode ser experimentada (TRABER, 1997:334f).

Seres humanos, entretanto, não nascem livres. Situam-se em relacionamentos existentes – nas famílias e nos grupos. Conseqüentemente, seres humanos se encontram com a liberdade dos outros. A verdadeira liberdade aceita outras liberdades incondicionalmente, e se abre para a liberdade dos outros.

Vale notar que a liberdade não é orientada primeiramente para objetos, mas sim para pessoas. Somente no encontro livre com os outros a liberdade pode ser genuinamente experimentada. Uma aproximação intersubjetiva à noção de liberdade também estabelece a racionalidade para as limitações da liberdade, que são assumidas pelos costumes e codificadas nas leis de todas as sociedades.

Essas reflexões conduzem a uma outra dimensão da comunicação: a igualdade. Nós não podemos nos comunicar com o outro quando o consideramos ‘inferior’. O mestre pode impor informação ao seu escravo ou empregado, mas uma comunicação genuína dificilmente tem seu espaço numa relação assim. O mesmo acontece quando os homens consideram mulheres como seres humanos ‘inferiores’. A mera informação ou a venda de produtos e o acesso às mídias podem então se tornar os substitutos de uma comunicação genuína. A liberdade comunicativa pressupõe o reconhecimento de que todos os seres humanos têm a mesma importância. E a igualdade se torna mais explícita nas interações humanas à medida que a comunicação acontece com mais facilidade e de maneira plena.

A igualdade, enquanto um conceito filosófico, é incondicional, mas não nega a realidade das identidades sociais específicas, lealdades ou interesses preferenciais. Igualdade não significa homogeneidade ou uniformidade. Tampouco contradiz os papéis e espaços que as sociedades conferem a indivíduos e grupos de pessoas. Mas a igualdade implica também direito de não ser discriminado por questões de raça, etnia, religião, sexo, idade, etc. Comentando a Declaração Africana dos Direitos das Pessoas e Povos, de 1986, que enfatiza os deveres do indivíduo para com a comunidade, e que formaliza a noção do grupo e dos direitos coletivos, Charles Husband (1998:139) afirma:

“No reconhecimento de nossa individualidade está a possibilidade de assumirmos a identidade da comunidade que fazemos parte, aquilo que nos une e nos solidariza. Conseqüentemente, os direitos individuais não podem ser inteiramente usufruídos ou garantidos, na ausência do respeito para com a dignidade, a integridade, a igualdade e a liberdade daquelas comunidades com as quais nos identificamos, incluindo a comunidade étnica a qual pertencemos. Na busca do reconhecimento de quaisquer de nossas comunidades... nós devemos reconhecer reciprocamente a legitimidade da existência e da integridade de outras comunidades, inclusive suas diferenças em relação a nós.”

A falta de reconhecimento de tais identidades na comunicação pública pode conduzir a uma “proliferação de guetos comunicativos em que audiências relativamente homogêneas consomem uma dieta estreita da informação, entretenimento e valores” (HUSBAND, 1998:143). A inclusão de grupos diferenciados na esfera pública possibilita o discurso heterogêneo dos cidadãos, no qual as identidades sociais podem ser afirmadas e os interesses coletivos expressos.

Isso nos leva, porém, a um outro tipo de lealdade – muitas vezes negligenciado – que sustenta os direitos à comunicação, nomeado lealdade dirigida e solidariedade para com o mais fraco e vulnerável na sociedade, tais como aqueles fisicamente ou mentalmente doentes, ou muito jovens ou idosos. Solidariedade geralmente inclui um compromisso ativo com indivíduos e grupos relegados às margens da sociedade, tais como os refugiados, os excluídos (por qualquer razão), os explorados e oprimidos. Isso não é apenas a “solidariedade com aqueles cuja liberdade foi suprimida, atribuindo-lhes menos do que têm direito enquanto seres humanos” (TRABER, 1997:335). A solidariedade ativa é uma das “reivindicações inescapáveis que nós não podemos renunciar, exceto com o custo de nossa humanidade” (PEUKERT, citado em CHRISTIANS, 1997:7). Nosso estar-no-mundo em comum é ontologicamente inclusivo e moralmente transformador. Injustiças brutais, para dizer o mínimo, nos preocupam e repugnam, e esse sentido de repulsa pode nos mover para a ação. A transcendência pessoal adquire então uma qualidade nova e ética. A intersubjetividade carrega implicitamente um direcionamento para a busca de uma ordem social equânime e, finalmente, para uma ‘boa sociedade’, como descrito em nosso estudo multicultural sobre normas e valores éticos (CHRISTIANS e TRABER, 1997). A ‘boa sociedade’ não é uma projeção utópica, mas sim o objeto de análise concreta, que é uma tarefa das Ciências Sociais e da ética social. O potencial transformador de uma comunicação é sumarizado na seguinte frase:

“Uma comunicação que libera habilita as pessoas a articularem suas próprias necessidades e as ajuda a agir juntas para atender essas necessidades. Realça seu sentido da dignidade e ressalta seu direito à participação plena na vida da sociedade. Permite reconstruir as estruturas da sociedade, para que se torne mais justa, mais equânime e mais voltada ao respeito dos direitos humanos” (WACC, 1997:8).

Os direitos à comunicação pública para todos

A abordagem com ênfase nas necessidades humanas conduz aos Direitos à Comunicação para indivíduos. Esse direito é compreendido como a garantia e a implementação da natureza social dos seres humanos por meio da comunicação interpessoal. Embora isso implique o direito a uma comunicação pública, faz-se necessário uma confirmação explícita, porque é neste nível que o direito de se comunicar é mais contestado.

O direito de se comunicar publicamente é estranho a todos que tradicionalmente associaram a comunicação pública com as elites políticas, sociais e culturais da sociedade. A noção de ‘atores sociais’ públicos influenciou extremamente a história da imprensa e de todos os meios de comunicação massivos restantes. Os critérios convencionais para notícias são obcecados com o valor da notícia de ‘proeminência’: os VIPs com poder político e econômico, e as ‘estrelas’ do mundo do entretenimento e dos esportes. De fato, o status de ‘estrela’ é auferido pelos meios de comunicação, pela exposição repetida. É uma invenção de Hollywood, que se espalhou da película de cinema para a televisão e a música popular. Os meios massivos têm, no curso do tempo, desenvolvido sua própria cultura com suas próprias normas. Uma delas é o chamado ‘profissionalismo’. Isto não significa necessariamente treinamento ou instrução, mas a noção elitista de que somente ‘pessoas especiais’, com talentos especiais, devem ser os jornalistas e os broadcasters. A comunicação pública é, assim, prerrogativa daqueles que podem, e fazem, as normas profissionais da cultura dos meios de comunicação.

Uma outra expressão elitista é a tendência – nada mais que uma tendência – de tentar evidenciar desconfiança para com o fato de que ‘pessoas comuns’ podem empregar mal a liberdade e o poder da comunicação pública. Essa desconfiança é particularmente evidente com respeito à juventude. Supõe-se que a responsabilidade política e ética é prerrogativa dos membros de uma certa classe social e profissional. Entretanto, o mau uso do poder da comunicação pública em anos recentes esteve sempre nas mãos desses ‘profissionais’. A cobertura da imprensa na Guerra no Golfo (1991), o papel do rádio e da televisão no genocídio em Ruanda (1994) e as campanhas pela guerra étnica nos Bálcãs, ex-Iugoslávia (muito antes da erupção dos conflitos), são casos que confirmam o que afirmamos.

Defensores dos direitos à informação pública para todos desafiam as prerrogativas da elite política e profissional. Seu modelo de comunicação pública é democrático, ao invés de autoritário. Os direitos visam à distribuição do poder de comunicação, de poucos para muitos, da elite para as comunidades da base da sociedade. Eles apontam para um novo papel do Estado, que se transforma somente em mais uma entre diversas partes interessadas; essa mudança alcança outras instituições, bem como outros grupos e organizações – além dos indivíduos.

Em outras palavras, o direito de se comunicar depende muito das estruturas sociais em que a comunicação pública ocorre. Resumidamente, a democracia requer mais do que a eleição dos representantes para um mandato legislativo ou executivo em um sistema multipartidário. Acima e além de votar e de partidos políticos, a democracia requer pessoas que podem fazer seus anseios conhecidos – em público – e que participam do debate sobre os tipos de processos políticos que aspiram.

O direito a se comunicar, entretanto, não pode estar isolado. É conectado a outros direitos humanos, particularmente os direitos à Educação, Cultura e Desenvolvimento Sócio-Econômico. HAMELINK (1998:56) trabalha com o conceito de auto-potencialização. Entre as condições essenciais da auto-potencialização estão o acesso e o uso dos recursos que permitem às pessoas se expressar, comunicar essas expressões a outros, trocar idéias, se informar sobre eventos no mundo, criar e controlar a produção do conhecimento e compartilhar das fontes de mundiais de conhecimento. Esses recursos incluem infra-estruturas técnicas, conhecimento e habilidades, recursos financeiros e recursos naturais. Sua distribuição desigual entre as pessoas do mundo obstrui a igualdade para se apropriar das condições da auto-potencialização e deve ser considerada uma violação dos direitos humanos.

O Relatório MacBride (1980:253) diz que o direito de se comunicar é um pré-requisito para outros direitos humanos. Há uma conexão direta entre comunicação e todos aqueles direitos que exigem a participação em espaços públicos. A sociedade e suas instituições devem permitir a participação ativa de todos na vida econômica, política e cultural da comunidade. Esta não é uma expressão elevada de benevolência, mas sim uma demanda por justiça. Tal participação no campo da comunicação é naturalmente mais do que ‘direitos do consumidor’ ou acesso passivo aos meios massivos, ou mesmo aos bate-papos interativos entre amigos na Internet. A participação aqui defendida significa o diálogo público sobre o bem público. Seu alvo é levar ao debate sobre a sociedade, seus valores e prioridades e, sobretudo, nosso futuro comum. Trata-se de um processo dinâmico e em construção, calcado na mudança e na transformação.

Conclusão

Assim, nós retornamos ao tema da intersubjetividade, ou ao estar-com-os-outros-no-mundo, com vistas a desenhar nosso futuro comum. Nosso ‘estar junto’ tem um lado de pessoal/privado, com seu respectivo direito, e uma responsabilidade pública, também com seus direitos específicos. O Direito à Comunicação Pública pertence à ordem pública e ao bem público, que são os direitos e a responsabilidade de todos, e não apenas de alguns.

A comunicação é similar ao sistema nervoso do corpo humano. É mantida por uma multiplicidade de sinais que se originam de todas as partes do corpo. Se o sistema nervoso ou o sistema imunológico falhar, o bem-estar do corpo inteiro é prejudicado. Similarmente, nenhuma democracia moderna pode existir, simplesmente deixada sozinha para florescer, sem um determinado nível de informação e de participação. É assim que todo corpo político depende dos Direitos à Comunicação. Os papéis da comunicação, interpessoal e pública, foram bem descritos no primeiro parágrafo do Relatório MacBride (1980:3).

A comunicação mantém e anima a vida. É também o motor e a expressão da atividade social e da civilização; conduz pessoas e povos do instinto à inspiração, por meio de processos e sistemas variados de questionamentos, de comando e de controle; cria um entendimento comum de idéias, fortalece o sentimento de solidariedade e traduz o pensamento em ação, refletindo cada emoção e necessidade, das tarefas mais humildes da sobrevivência humana às manifestações supremas de criatividade ou destruição. A comunicação integra o conhecimento, a organização do poder e dirige os caminhos que ligam a memória do homem (seres humanos) a sua (suas) aspiração (aspirações) mais nobre (s), endereçando-o (s) constantemente para uma vida melhor.

Enquanto o mundo tem avançado, a tarefa da comunicação tem se tornado sempre mais complexa e sutil – para contribuir com a liberação da humanidade da opressão e do medo e para uni-la em comunidade e em comunhão, solidariedade e compreensão. Entretanto, apesar de algumas mudanças estruturais básicas terem sido introduzidas, os benefícios potenciais do desenvolvimento tecnológico e da comunicação dificilmente serão colocados à disposição da maioria da humanidade.

Notas

The Journal of International Communication (Sydney) devotou uma edição dupla (Vol.5, nºs. 1 e 2, 1989) ao debate sobre comunicação e direitos humanos, no contexto da globalização e do ciberespaço. É editada por Shalini Venturelli e contém contribuições de líderes nesse campo, tais como CeesJ. Hamelink, George Gerbner, Marc Raboy e outros.

Eu cito sem nenhuma ‘vergonha’ passagens de Many Voices, One World, conhecido popularmente como o Relatório MacBride, que a UNESCO desprezou por muito tempo. Este texto escrito para a iniciativa designada New World Information and Communication Order (NWICO) é mais pertinente hoje do que quando realizado em 1980, quando todos os estados-membros da UNESCO o endossaram, com uma abstenção. Com os descaminhos do desenvolvimento da comunicação pública nos últimos 20 anos, o NWICO foi abandonado como um ato de tolice total.

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QUEM É MICHAEL TRABER

Nascido em 1929, na Suíça, é graduado em Filosofia, Teologia e Comunicação Social. É PhD. em Comunicação Social pela New York University (EUA) em 1960, quando defendeu sua tese “Race as a Factor in International Communications”. É cidadão britânico e membro da ordem religiosa suíça ‘Bethlehem Community’. Também é ordenado como sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana.

Foi repórter na Ásia em 1960-61. Posteriormente trabalhou no Zimbábue, na época conhecido como Rodésia, como editor de jornal e de livros por nove anos. Em 1970 foi expulso do País pelo governo de minoria branca de Ian Smith, sob a alegação de ‘atividades subversivas’. Trabalhou para a WACC - World Association for Christian Communication em Londres, de 1977 a 1996, como Diretor de Estudos e Publicações, além de editor da Revista Media Development. É autor de vários artigos e cinco livros, sendo o mais recente na área de Ética da Comunicação. Desde 1996 é docente na area de Comunicação no United Theological College (UTC), em Bangalore, Índia (http://www.utcbangalore.org). Também atua como professor de Ética da Comunicação na Gregorian University, em Roma.

WACC promotes communication for social change. It believes that communication is a basic human right that defines people's common humanity, strengthens cultures, enables participation, creates community and challenges tyranny and oppression.

The World Association for Christian Communication is a UK Registered Charity (number 296073) and a Company registered in England and Wales (number 2082273) with its Registered Office at 36 Causton Street, London SW1P 4ST. It is an incorporated Charitable Organisation in Canada (number 83970 9524 RR0001) with its head office at 308 Main Street, Toronto ON, M4C 4X7.